09 novembro 2009

Homomusics?

Caríssimos leitores do Pimentas no Reino,

Leia esse texto sem qualquer preconceito, até porque preconceito é coisa de v...ops...Coisa de...coisa de...ah, deixa pra lá...Preconceito é horrível e ponto.

A internet é um ambiente gay friedly. Toda e qualquer manifestação homofóbica na rede mundial de pessoas (e não mais de computadores, como bem apontou twitteira e apresentadora da TV Orkut @monicaserta) é tão rápida e veementemente rechaçada que demonstra o quanto o internauta não está nem aí para a vida sexual dos outros. Ainda bem que é assim. Um dia os "off line" aprendem.


Mas o objetivo desse texto é fazer, sem qualquer intenção de esgotar o assunto, um breve histórico sobre músicas que, por assim dizer, saíram do armário...

I want to break free (aquela, do célebre clip com Freddie Mercury de bobs e bigode fazendo compras em um supermercado) ou Strangers in the Night (Estranhos na Noite) do Frank Sinatra ocupam um papel relevante nessa temática, mas vou me limitar a falar de músicas nacionais.



Soa estranho pensar que na chamada música brega (ah, esses rótulos...) já tivemos o que eu chamo de "homomusics", afinal, música chamada brega toca em AM, e o público da AM é tradicionalmente mais conservador ( e seus comunicadores, geralmente são mais reacionários ainda). Mas vasculhando os registros encontramos em 1975 na voz de Agnaldo Timóteo uma música chamada Galeria do Amor, que tem, dentre outros versos, os seguintes:



Numa noite de insônia saí
Procurando emoções diferentes
E depois de algum tempo parei
Curioso por certo ambiente
Onde muitos tentavam encontrar
O amor numa troca de olhar

...
A galeria do amor é assim
Um lugar de emoções diferentes
Onde gente que é gente se entende

Pra quem não sabe, "entendido", por muito tempo, foi um sinônimo de homossexual (em especial as lésbicas). Como a letra dessa música é bastante discreta (como convinha no momento histórico e até político do país), essa música fez relativo sucesso. E escapou da censura, então vigente no país.




Em 1979 a ponta "de cima" da música brasileira (olha eu sendo preconceituoso...que feio...) também fez suas menções ao "amor que não se diz o nome" (a homoafetividade já foi tratada assim, acredita?). Gilberto Gil, em sua poética "Super Homem - A Canção" cantava :


Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora

É o que me faz viver

Por se tratar de poesia pura, ela comporta diversas interpretações. Até o próprio autor defende que essa música não é apologia ao homossexualismo. No livro Todas as Letras ele escreveu: “muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo e ela é o contrário. (...) Eu tinha feito ‘Pai e Mãe’ antes, já abordara a questão, mais explicitamente da posição de ver o filho como o resultado do pai e da mãe. Em ‘Super-Homem — A Canção’, a idéia central é de que pai é mãe, ou seja, todo homem é mulher (e toda mulher é homem).”



Em 1983 coube a um homem que cantava com sua esposa cantar em alto em bom som, para todas as FMs e emissoras de TV do país que:

Ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino
Se Deus é menina e menino
Sou Masculino e Feminino...

Pepeu Gomes e sua esposa Baby Consuelo (na época era Consuelo. Depois ela virou "do Brasil". Mas desde sempre ela foi "do Brasil" e pra mim eternamente será "Consuelo". Enfim...coisas da numerologia...) além de fazer filhas com a cara da mãe e nomes estranhos, também faziam músicas como essa. Só em 2005, 22 anos depois, uma cantora famosa viria até a capa da Veja e de forma muito tranquila falaria "Sou Bi, e daí?"




Em 1986 , dentro do movimento cultural chamado Lira Paulistana, um grupo pra lá de alternativo,o Premê, viria a compor a escrachada Rubens, que anos depois viria a ser gravada pela Cássia Eller. Essa música é ainda mais direta do que todas as outras. Se não lembra, leia alguns trechos:

Quero te apertar
Quero te morder,me dá
Quero mas não posso,não,porque:
Rubens!!Não dá!
A gente é homem
O povo vai estranhar
Rubens!!Para de rir
Se a tua família descobre
Eles vão querer nos engolir

A sociedade não gosta
O pessoal acha estranho
Nós dois bricando de médico
Nós dois com esse tamanho

E com essa nova doença
O mundo todo na crença
Que tudo isso vai parar
E a gente continuando
Deixando o mundo pensar




Vieram os anos 90 e já não tinha tanta graça fazer letras como essas . Agora era preciso reafirmar sua posição perante a sociedade com "atitude". Marina Lima fez isso de forma extremamente simples. Um polegar indicado para si mesmo, mais exatamente. No seguinte verso:

Você precisa de um homem pra chamar de seu

Mesmo que esse homem seja eu




Também resgatando uma música da Jovem Guarda, Adriana Calcanhoto no ano 2000 fez uma releitura interessante de Devolva-me

Deixe-me sozinho
Porque assim
Eu viverei em paz
Quero que sejas bem feliz
Junto do seu novo rapaz...

Mais recentemente tivemos o compositor Jorge Vercilo cantando :

Chega de fingir
Eu não tenho nada a esconder
Agora é pra valer, haja o que houver
Não to nem aí
Eu não to aqui pro que dizem
Eu quero é ser feliz, e viver pra ti
Pode me abraçar sem medo
Pode encostar sua mão na minha

E por aí vai...E você, leitor, lembra de mais alguma ?

4 comentários:

  1. CLAP CLAP CLAP
    Não há nada a dizer.
    Parabéns pelo post.

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  2. Homomusics do passado são rits de muita alegria tanto entre os que viveram na época, como para os que hoje apreciam. Parabéns pelo post.

    Sobre alguém lembrar de mais alguma?
    Foi a deixa...

    Então, serve uma "super atual"? Acabei de escutar! Sei... Foge do padrão aqui muito bem elaborado...
    "Não é o prato do dia, mas é o que tem prá hoje": Mulher feijoada - Novo hit da Lacraia

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  3. Parabéns pelo post ... Bem, vamos lá ...

    ainda do Vercilo:

    "Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
    O desejo a nos punir, só porque somos iguais
    A Idade Média é aqui
    Mesmo que me arranquem o sexo, minha honra, meu prazer
    Te amar eu ousaria
    E você, o que fará se esse orgulho nos perder?"

    Do Fernando Lobo regravado pela Isabella Taviani:

    "De que vale sonhar um minuto se a verdade da vida é ruim?
    Se existe um preconceito muito forte separando você de mim"

    o saudoso Renato Russo :

    "E eu gosto de meninos e meninas"

    Zélia Duncan com seus Imorais:

    "Os imorais
    Falam de nós
    Do nosso gosto
    Nosso encontro
    Da nossa voz ...
    ...Mas um dia, eu sei
    A casa cai
    E então
    A moral da história
    Vai estar sempre na glória
    De fazermos o que nos satisfaz"

    e escancarando de vez a Ana Carolina :

    "Eu gosto de homens e de mulheres
    E você o que prefere?
    E você o que prefere?"

    E por ai vai, né? ... foi divertido !!! Nunca havia parado para pensar nisso.

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  4. Anna Paula Marcela12 de nov de 2009 12:16:00

    Olá Fernando! Parabéns pelo texto simplesmente perfeito!
    Das músicas citadas só não conhecia a do Agnaldo nem a da Cássia Eller!
    Mas se formos analisar existem muitas letras de músicas com caráter homossexuais, sejam apenas para divertir até aquelas como forma de protesto! Engraçado que sempre tem algumas que são tão veladas, que acabam passando despercebidas né?

    De nacionais lembro de:
    - Meninos e Meninas (Renato Russo)
    Rock da aranha (Raul Seixas)

    Internacionais:
    Go West e New York City Boys (Pet Shop Boys, que é uma banda mundialmente
    conhecida por letras q defendem a causa gay)
    Do you really want to hurt me (Culture Club, outra banda bem conhecida por seu cunho homo)
    Girls just wanna have fun (Cindy Lauper)
    Don't let the sun go down on me (Elton John)
    A little respect (Erasure)
    This charming man e The boy with the thorn in his side (The Smiths)
    Essas 2 ultimas há muita polêmica a respeito, uns dizem q o Morrissey escreveu This charming man para uma paixão platônica, outros dizem q ele estava retratando ele próprio na música, polêmicas a parte, a maioria dos fãs dizem que sim, as 2 canções tem caráter gay!)

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